* Por Tássia Biazon

 

Você já ouviu falar em algicultura? O termo se refere a uma atividade econômica que vem se desenvolvendo nos últimos anos: o cultivo de algas. Anualmente, milhões de toneladas de algas são produzidas no mundo, e se engana quem pensa que elas são usadas apenas nos sushis. Por exemplo, a cerveja e a pasta de dente também contém compostos extraídos das algas.

“As algas são fonte de diversos nutrientes alimentares, tais como minerais, proteínas, vitaminas e fibras, e por isso são utilizadas na alimentação humana direta ou como aditivo em ração animal. Também são utilizadas como fonte de matéria-prima de hidrocoloides dos tipos ágar, carragenana e alginato, muito empregados na indústria alimentícia como espessantes, aditivos e clarificantes de alimentos e bebidas. As algas também se destacam por suas propriedades antioxidantes e atividades biológicas, podendo servir para a prevenção e ação anticancerígena, antifúngica, antiviral, fotoprotetora contra radiação UV, dentre outras”, explica a bióloga Patrícia Guimarães Araújo, pós-doutoranda do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB/USP).

Entre as espécies de algas mais cultivadas está Kappaphycus alvarezii, uma macroalga marinha pertencente ao grupo Rhodophyta, ou seja, algas vermelhas. Originária das Filipinas, a K. alvarezii é cultivada em regiões tropicais e subtropicais como fonte de matéria-prima para a produção do hidrocoloide carragenana, polissacarídeo muito empregado na indústria alimentícia como agente estabilizante e gelatinizante, por exemplo. Além disso, estudos mostram a importância de K. alvarezii como fonte de minerais e de antioxidantes. “Atualmente, K. alvarezii é a principal macroalga marinha cultivada no mundo. Além da sua importância econômica, esta espécie tem alta taxa de produtividade e facilidade de cultivo, o que promoveu sua introdução e maricultura em diversas regiões tropicais e subtropicais”, relata Patrícia, que desenvolve um projeto de pesquisa sobre o cultivo e monitoramento ambiental de K. alvarezii no Litoral Norte do Estado de São Paulo, em parceria com o Núcleo Regional de Pesquisa do Litoral Norte do Instituto de Pesca.

 

A macroalga rodofita Kappaphycus alvarezii

A macroalga rodofita Kappaphycus alvarezii (Foto: Patrícia Guimarães Araújo)

 

Apesar do Brasil possuir condições ambientais apropriadas e resultados promissores do cultivo de K. alvarezii, esta atividade ainda é incipiente no país. “K. alvarezii é uma alga exótica, que foi introduzida no Brasil em 1995, no litoral de São Paulo, sob estritos procedimentos de quarentena sanitária e com aprovação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), com propósito de avaliar o risco ambiental e viabilidade econômica. Posteriormente, seguiram-se as introduções no litoral do Rio de Janeiro (em 1998), Paraíba (em 2001) e Santa Catarina (em 2007)”, ressalta a pesquisadora, informando também que apenas no Estado do Rio de Janeiro há produção em escala comercial, voltada para a produção de carragenana. Os demais estados que possuem cultivo, o fazem em pequena escala ou para pesquisa.

Em 2008 foi publicada a Instrução Normativa do IBAMA Nº 185, que permite o cultivo comercial de K. alvarezii apenas nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, e dispõe das normas para produção desta espécie, incluindo a obrigatoriedade do monitoramento ambiental das fazendas de cultivo. “Apesar das inúmeras introduções no mundo todo, com sistemas de produção estabelecidos, poucos são os registros acerca dos impactos ambientais causados pela alga. Os poucos registros de proliferação não controlada, no Havaí e na Índia, devem-se ao abandono das fazendas de cultivo e negligência do produtor, que consequentemente levou ao estabelecimento de ramos de K. alvarezii sobre recifes de corais, causando sombreamento e reduzindo a taxa de vida desses organismos”, esclarece Patrícia.

Contudo, a algicultura não progrediu significativamente nos últimos anos e, segundo Patrícia, um dos principais gargalos da atividade é o acesso restrito às licenças ambientais, a falta de políticas públicas e também de apoio aos pequenos produtores. Neste cenário, frente à necessidade e importância do estabelecimento de estratégias para o desenvolvimento da algicultura, bem como do monitoramento ambiental do cultivo de K. alvarezii no litoral paulista, somado às demandas dos produtores da região, foi realizado o “Workshop Cultivo e Monitoramento de Algas Marinhas”, que ocorreu nos dias 17 e 18 de julho de 2018, na Baía de Itaguá, em Ubatuba.

 

Atividades do Workshop Cultivo e Monitoramento de Algas Marinhas (Foto: Marina Souza Melo)

 

O evento teve o objetivo de discutir ações para o desenvolvimento da produção sustentável de algas marinhas no litoral do Estado de São Paulo, e contou com a participação de 98 pessoas, que representavam instituições públicas, pescadores e maricultores, como: Universidades e Institutos de Pesquisa, Prefeituras de Ubatuba e São Sebastião, Marinha do Brasil, IBAMA, Fundação Florestal, Área de Proteção Ambiental Marinha do Litoral Norte (APAMLN), ONGs, empresários, produtores marinhos, associações de maricultores e pescadores, além de estudantes de universidades do Estado de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Durante o evento foram ministradas palestras e mesas redondas, a fim de discutir aspectos relacionados à produção comercial de algas, monitoramento ambiental, licenciamento e transferência de tecnologia. No final, esses aspectos foram compilados em um documento, intitulado “Carta Aberta de Ubatuba – Cultivo e Monitoramento de Algas Marinhas”, o qual aborda demandas, encaminhamentos e propostas elaboradas a partir das discussões ao longo do evento, e que contribuirão para o desenvolvimento da maricultura no litoral norte de São Paulo.

O Workshop Cultivo e Monitoramento de Algas Marinhas - 2018 foi idealizado a partir das ações do projeto de Pós-doutorado “Cultivo de Kappaphycus alvarezii (Doty) Doty ex P.C. Silva (Rhodophyta) no litoral de São Paulo, Brasil: monitoramento ambiental, produção de biomassa e avaliação de produtos naturais”, desenvolvido no IB/USP, e que faz parte das atividades do Projeto “SeaFeed - Ingredientes sustentáveis para alimentos e ração animal a partir de macroalgas”, coordenado pelo IB/USP e pelo Instituto Fraunhofer IVV (Alemanha), em parceria com Instituto de Botânica do Estado de São Paulo (IBt/SP), Instituto de Pesca (IP/SP), Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e Companhia das Algas (Ceará).

Para além da importância ambiental das algas marinhas, por serem a base da cadeia alimentar das comunidades marinhas, contribuírem com a produção de oxigênio na atmosfera e absorção de CO2 e servirem de refúgio e proteção para diversos organismos marinhos e substratos em recifes de corais, esse evento reforça a importância econômica e social do cultivo das algas marinhas. “As algas marinhas têm sido exploradas mediante o manejo de bancos naturais e cultivadas em diversas regiões do mundo, representando uma fonte de renda de inúmeras comunidades costeiras e empresas de pequeno, médio e grande porte”, finaliza Patrícia.

 

 

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