* Por Tássia Biazon

 

Os recifes estão entre os ecossistemas mais importantes do bioma marinho, ao abrigar extraordinária diversidade de espécies (crustáceos, peixes, tartarugas, mamíferos etc.), além de uma complexidade de interações entre elas. No Brasil, os recifes distribuem-se por aproximadamente 3.000 km (de um total de quase 8.000 km de costa), sendo mais abundante na região nordeste, do Maranhão ao Sul da Bahia.

Uma maneira de conhecer melhor esse ecossistema é pela leitura da obra ‘Ecologia de Peixes Recifais em Pernambuco’, uma iniciativa pioneira no país sobre a ecologia de peixes que dependem dos recifes de corais, organizada por Maria Elisabeth de Araújo, professora da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), Caroline Vieira Feitosa, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Sérgio Macedo Gomes de Mattos, pesquisador do Grupo de Ictiologia Marinha Tropical (IMAT) e publicada em 2018 pela Editora da UFPE de maneira gratuita e online.

 

 

“Um dos destaques do livro é a quantidade de informações e imagens relevantes, a maioria inédita, reunidas em um único volume científico/literário, essenciais para estudos acadêmicos na área de oceanografia”, afirma Elisabeth Araújo. A organizadora relata que a ideia de fazer a obra surgiu em 2010, ao sentir uma necessidade urgente de reunir dados científicos em um livro didático e bem ilustrado sobre ecologia de peixes recifais brasileiros, suprindo uma carência literária acadêmica em português.

“O compartilhamento do que é produzido nos laboratórios de instituições de pesquisa demora muito tempo para ser publicado e os assuntos ficam dispersos, dificultando a busca e a compilação da bibliografia utilizada por estudantes e professores em cursos de oceanografia, ciências do mar e áreas correlatas”, analisa Elisabeth. "Esse é o público-alvo do livro (pesquisadores, professores e estudantes da área), porém o livro garante uma leitura acessível a não pesquisadores e traz fotografias atraentes, que chamam a atenção de pessoas que se interessam pela vida no mar”, acrescenta.

Informações contidas em artigos científicos, porém compiladas de forma bastante didática, com fotos e ilustrações essenciais para caracterizar peixes e outros organismos em ecossistemas costeiros, estruturam os treze capítulos, organizados em duas partes. A primeira parte, teórica, apresenta um breve histórico da formação dos recifes no Brasil, com enfoque no papel dos peixes herbívoros em recifes (Cap. 1) e impactos antropogênicos em ambientes marinhos (Cap. 2).

 

Vista aérea do complexo estuarino do Rio Formoso, que envolve a praia dos Carneiros (Tamandaré), manguezais e recifes (Foto: Danise Alves)

 

A segunda parte apresenta estudos de caso para Pernambuco: caracterização da zona costeira da região, que abriga inúmeras espécies costeiras e marinhas, algumas das quais ameaçadas, como o peixe-boi marinho (Trichechus manatus manatus) (Cap. 3); descrição geral das condições meteorológicas e oceanográficas da Plataforma Continental em Pernambuco (Cap. 4); dados sobre elasmobrânquios (raias e tubarões) e suas interações com humanos, essencialmente incidentes que são muito comuns no estado (Cap. 5); histórico do conhecimento existente sobre os peixes ósseos registrados na costa de Pernambuco (Cap. 6); compreensão das relações tróficas dos peixes com o zooplâncton (Cap. 7); interconectividade dos ecossistemas costeiros e o modo como estes garantem que o ciclo de vida dos peixes seja completo (Cap. 8); relação entre os organismos que colonizam as estruturas rochosas, como as algas (Cap. 9); colônias de corais que são abrigo contra predadores, área de reprodução, berçário, crescimento e locais de alimentação para muitas espécies marinhas (Cap. 10); associação de peixes aos naufrágios, uma vez que Recife é considerada a capital desses acidentes no país (Cap. 11); informações sobre a diversidade biológica e descarte de espécies que ocorrem nas pescarias com covos em recifes costeiros (Cap. 12) e introdução sobre os aspectos relacionados à criação e gestão de unidades de conservação atualmente vigente no Brasil (Cap. 13).

Muitas mãos contribuíram para a concretização desta obra, seja no trabalho de campo, laboratório, análise de dados, elaboração de mapas e figuras, fotografias, correções de texto, editoração e financiamento de pesquisas. “São 77 pessoas envolvidas nesta obra, sendo 44 autores, 21 revisores, cinco fotógrafos não-autores, duas diagramadoras e cinco pesquisadores responsáveis pela apresentação do livro, prefácio e posfácio. O tempo gasto para a composição, organização, revisão, edição e diagramação foi em torno de cinco anos”, relata Elisabeth Araújo.

O livro alerta que, se nada for feito, até o ano de 2050 é estimada a perda de até 50% dos recifes de corais e que a região costeira pernambucana vem sofrendo muitos impactos antropogênicos, como despejo de esgoto, dragagem e exploração excessiva dos recursos. “Dos treze capítulos, quase metade traz questões de interesse social: aspectos socioeconômicos do estado (Cap. 3), impactos ambientais oriundos de atividades antropogênicas (Cap. 2) – tais como o descarte de fauna acompanhante (Cap. 12) e as interações de tubarões com humanos (Cap. 5) – cujas possíveis soluções encontram-se no Cap. 13, que aborda as unidades de conservação costeiras. Do ponto de vista político-acadêmico, o Cap. 6 apresenta o histórico do conhecimento em ictiologia visando os mecanismos das linhas de pesquisa em universidades públicas”, analisa Elisabeth.

“Em tempos como os atuais, em que está cada dia mais difícil fazer ciência no Brasil, este livro é mais uma prova do enorme compromisso que esses e outros acadêmicos tem com o compartilhamento de seus saberes junto ao meio científico, mas principalmente à sociedade”, finaliza a organizadora da obra.

 

Para acessar o livro na íntegra: clique aqui

 

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