* Por Tássia Biazon

 

Escuridão. Pressão. Vastidão. Esses são os principais desafios que dificultam estudar o lugar mais inexplorado da Terra: o mar profundo.Com recursos humanos, financeiros e tecnológicos emergentes, o Brasil possui importantes pesquisas relacionadas a ecossistemas localizados quilômetros abaixo da superfície do mar, como aborda o livro ‘Brazilian Deep-Sea Biodiversity’ ('Biodiversidade do mar profundo brasileiro', em tradução livre), publicado pela Springer agora em outubro.

 

 

“O livro descreve a biodiversidade existente em diferentes habitats de mar profundo da margem continental brasileira, aspectos da sua conservação e as ameaças que vêm sofrendo e outras potenciais que poderão ser importantes no futuro não tão distante”, conta Paulo Sumida, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e um dos editores da obra, juntamente com Fábio De Léo, pesquisador da Ocean Networks Canada, e Ângelo Bernardino, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Dedicada principalmente a cientistas e pós-graduandos, mas interessante também aos alunos de graduação ou qualquer público interessado no tema, a obra foi construída após uma pioneira revisão da literatura científica disponível sobre a biodiversidade brasileira de profundidade. “Certamente este é o primeiro livro que descreve a biodiversidade brasileira de mar profundo e, certamente, será um marco para oceanografia nacional”, revela Sumida.

Escrita por 27 pessoas durante cerca de dois 2 anos e composta por oito capítulos com excelente conteúdo e diversas ilustrações, a publicação aborda variados temas como biodiversidade bentônica marinha, circulação oceânica, cânions submarinos, impactos humanos, recifes de corais, microrganismos e peixes, ecossistemas quimiossintetizantes e recursos vivos e não vivos nas águas profundas brasileiras.

É um engano pensar que só há uma vastidão de água no fundo do mar. As profundezas dos oceanos abrigam uma incrível biodiversidade como recifes de corais; escondem riquezas minerais como cobre, zinco, cádmio, chumbo e até ouro e prata; constituem uma importância singular para o clima global; além de mexerem com imaginário das pessoas há muito tempo.

A ideia para a construção da obra foi a partir de um convite do professor Alexander Turra, também do IO-USP, para participar de uma série de livros denominada ‘Brazilian Marine Biodiversity’ (‘Biodiversidade Marinha Brasileira’, em tradução livre). “Essa série é publicada pela Springer e traz para uma audiência mundial o conhecimento sobre a biodiversidade marinha brasileira, em especial sobre os ambientes bentônicos costeiros estudados pela ReBentos, a Rede de Monitoramento de Habitats Bentônicos Costeiros”. Segundo Turra, embora o mar profundo não seja um habitat costeiro, ele foi incluído na série pois é um importante ecossistema sobre o qual ainda há pouco conhecimento no Brasil.

Diversos projetos custeados ao longo dos anos por agências federais, estaduais e privadas, possibilitaram um conhecimento do mar profundo brasileiro que convergiram na obra. Ou seja, essas agências proporcionaram um financiamento indireto para que o livro se tornasse uma realidade, segundo Sumida. De forma semelhante, essa série da Springer é fruto do fomento à ReBentos pelo CNPq, FAPESP, CAPES e FINEP no âmbito da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima; Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas (INCT Mudanças Climáticas).

 

Octocorais de mar profundo vivendo a 900 metros de profundidade na Elevação de Rio Grande ao largo da margem continental Sudeste/Sul do Brasil. A. Priminoídeo servindo de substrato para um pequeno lírio-do-mar; B. O coral espiralado do gênero Iridogorgia; C. Detalhe dos pólipos de um octocoral isidídeo; D. Vista geral de basaltos servindo de substratos para gorgônias. Imagens: Consórcio Iatá-Piúna – JAMSTEC/IOUSP.

 

Contudo, ainda há muito o que ser estudado sobre a biodiversidade da margem continental brasileira. Em contrapartida, só aumentam os interesses industriais e comerciais sobre recursos vivos e não vivos fornecidos pelos ecossistemas do fundo do mar, que envolvem desde alimentação até metais para uso na indústria de alta tecnologia! Um desses recursos são os elementos terras raras, materiais cada vez mais difíceis de serem encontrados em regiões continentais.

Mas com a exploração do fundo do mar brasileiro, que é altamente heterogêneo, há impacto em uma variedade de habitats em escala e intensidade ainda indeterminadas, conforme aborda o livro. “A falta de conhecimento sobre a biodiversidade e os processos oceanográficos que governam os ambientes de mar profundo dificulta a tarefa de promoção do desenvolvimento sustentável”, ressalta Turra.

Apenas cinco pessoas até hoje atingiram a Fossa das Marianas, o ponto mais profundo do oceano. Felizmente, a tecnologia tem permitido, por exemplo por meio dos submersíveis, a exploração desse lugar distante e inóspito para a espécie humana, revelando que a riqueza do fundo do mar é uma nova fronteira a ser explorada e uma das maiores do mundo. “Apesar de sua imensa costa, onde está a maior parte da população, o Brasil sempre foi um país voltado para o interior. Precisamos mostrar que grande parte (ou a maior parte) de nossa riqueza econômica e cultural passa pelo mar”, afirma Sumida. “Carecemos de literatura produzida no próprio país e mais ainda sobre o mar profundo, que ainda é um grande mistério para a sociedade. Espero que este livro chame a atenção da sociedade e de instituições para a importância do mar profundo para o nosso planeta”, finaliza.

Fomento

Vínculo