Tássia Biazon

 

A fim de aproximar o cidadão da ciência, os cientistas necessitam expor suas pesquisas para além dos periódicos científicos. Um exemplo disso é o Livro MAArE - Monitoramento Ambiental da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo e Entorno, publicado em agosto de 2017 e disponível para download – uma obra em que diversos cientistas expõem ao grande público muitas informações sobre uma importante região do litoral catarinense, como aspectos relacionados à história, oceanografia, biodiversidade, gestão costeira etc.

 

O Livro é resultado de uma pesquisa de cerca de três anos, 140 pesquisadores envolvidos e 130 expedições ao mar, o Projeto Monitoramento Ambiental da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo e Entorno (MAArE). Iniciado em 2013, o Projeto é decorrente de uma parceria entre laboratórios da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), além da participação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) no âmbito da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo (Rebio Arvoredo).

 

Estabelecida em 1990, a Rebio Arvoredo é uma unidade de conservação (UC) de proteção integral – onde é apenas permitido o uso indireto dos recursos naturaiscom pouco mais de 17 mil hectares de superfície, localizada no litoral do Estado de Santa Catarina, entre os municípios de Florianópolis e Bombinhas. No Brasil, segundo o ICMBio, há apenas duas Reservas Biológicas marinhas: a Rebio Arvoredo, em Santa Catarina e a Rebio Atol das Rocas, no Rio Grande do Norte. Também há duas Reservas Biológicas em áreas costeiras: a Rebio dos Comboios, no Espírito Santo e a Rebio de Santa Isabel, em Sergipe.

 

 

Ilha Deserta, uma das ilhas que compõem a Rebio Arvoredo (Foto: João Paulo Krajewski)

 

Com os objetivos principais de realizar o diagnóstico e o monitoramento ambiental da Rebio Arvoredo e o seu entorno, o Projeto MAArE surgiu de uma condicionante de licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e ICMBio sobre um empreendimento de óleo e gás na Bacia de Santos (a maior bacia sedimentar offshore do Brasil) próximo ao município de Itajaí, Santa Catarina.

 

“Como as embarcações de apoio à operação passariam na Zona de Amortecimento da Rebio Arvoredo, a equipe da UC – gerida pelo ICMBio – exigiu que o empreendedor – a Petrobras – se responsabilizasse por um projeto de monitoramento ambiental da região. Esse projeto deveria levantar informações que pudessem embasar a gestão da Rebio Arvoredo. A primeira campanha de coleta de dados aconteceu em 2013, mas as negociações para elaboração do Projeto MAArE iniciaram em 2010”, conta a coordenadora do Projeto e professora da UFSC, Bárbara Segal Ramos.

 

Com caráter multidisciplinar, segundo a professora, o Projeto buscou: construir uma linha de base do conhecimento sobre a biodiversidade de costões rochosos da Reserva e o seu entorno (peixes, crustáceos, algas, espécies exóticas, invertebrados sésseis etc.); caracterizar parâmetros oceanográficos da região costeira do litoral central de Santa Catarina (marés, ondas, correntes, condições meteorológicas, temperatura e salinidade, nutrientes, clorofila, plâncton, contaminantes); executar uma proposta piloto de monitoramento, a fim de discutir e embasar diretrizes de monitoramento na UC; organizar o primeiro Workshop “Monitoramento para apoio à gestão de Unidades de Conservação Marinhas do Brasil” (que contou com a participação de 70 pessoas, entre gestores e pesquisadores de UCs da costa brasileira); elaborar um sistema de armazenamento e disponibilização de dados de monitoramento – o “Portal de Monitoramento Marinho” – e por fim, divulgar os resultados em um livro.

 

A também coordenadora do MAArE e professora da UFSC, Andrea Santarosa Freire, comenta que tanto o Projeto, o Workshop e o Livro são pioneiros na busca pela integração da oceanografia com o ecossistema recifal. “Isso é muito difícil de ser realizado no Brasil, porque são estudos muito caros, que necessitam de diferentes métodos de coletas, embarcações e profissionais. Além disso, muitas vezes os profissionais das duas áreas estão dispersos, o que dificulta a integração”, destaca Andrea.

 

Além da publicação de artigos científicos, os pesquisadores do Projeto MAArE se preocuparam em expor, a outros públicos, informações coletadas durante os anos de pesquisa nas ilhas da Rebio Arvoredo (Arvoredo, Deserta, Galé e Calhau de São Pedro) e arredores, ao publicar o Livro – com o mesmo título do Projeto –, organizado em seis capítulos e 268 páginas, escrito em linguagem de divulgação científica e ilustrado por fotografias, desenhos artísticos e infográficos.

 

 

Livro na versão impressa (Foto: Marcia Regina Denadai)

 

Com muitas horas embaixo d’água, os pesquisadores realizaram um levantamento sobre a biodiversidade e fatores oceanográficos da região. “Os resultados representados pelas belas fotos mostram um ecossistema recifal muito diversificado. Já tínhamos muitos estudos nessa Rebio, e ainda assim, identificamos muitas espécies de crustáceos e peixes pela primeira vez no local”, informa Andrea. Segundo o Livro, já foram registradas na Reserva mais de 1600 espécies marinhas e terrestres, entre elas muitas algas, esponjas, corais, crustáceos e peixes.

 

Embora a publicação tenha como principais públicos-alvo gestores, educadores e mergulhadores, ela é acessível ao público em geral, interessado na paisagem marinha e sua conservação. “Elaborar um livro sempre foi um resultado previsto pelo Projeto. Contudo, havia muitas dúvidas, por exemplo, quanto ao seu formato ser de divulgação científica ou técnico. No final, a obra acabou sendo uma combinação dos dois, em que apresentamos diversas informações científicas da região de maneira muito agradável, com belas imagens e ilustrações, que encantam e conquistam o leitor”, expressa Bárbara. Outro aspecto interessante do Livro é que muitos autores são alunos de graduação e pós-graduação. “A participação dos alunos em todos os processos foi um diferencial do Projeto e muito importante para a formação de profissionais mais completos”, comenta Andrea.  

 

Grande parte submersa – o que muitas vezes acaba sendo desconhecida pelos olhos humanos –, a biodiversidade da região é apresentada no Livro pelo biólogo e fotógrafo João Paulo Krajewski, que há 20 anos mergulha na Rebio Arvoredo. Além de realizar belíssimas imagens, Krajewski também é o autor do primeiro capítulo da obra, em que expõe seu encantamento e sua preocupação com a preservação da região, ao dizer que começou a sentir falta de alguns elementos e notar outros. “Há espécies invasoras, como o coral-sol e aquelas que há muito tempo não avisto, como a raia gigante”, informa.

 

Krajewski conta que, para a realização do registro fotográfico, o Projeto MAArE realizou quase 50 dias de mergulhos. “Tivemos dias de mar calmo e transparente e outros com grandes ondas, água fria e turva – variedade de cenários que contribui para a riqueza da fauna marinha. Tivemos dias em que saltamos na água cristalina e encontramos cardumes gigantes de xaréus, raias de diversas espécies e até grupos de golfinhos-nariz-de-garrafa”, exprime o fotógrafo, que acredita no potencial das informações captadas pelo MAArE. “Essas informações nos mostrarão como estão as condições da vida marinha e a qualidade da água no presente, como também nos possibilitarão comparações no futuro, para sabermos se nossos esforços estão sendo suficientes para preservação desta região tão importante à biodiversidade marinha”, acrescenta.

 

O Projeto MAArE realizou pela primeira vez uma descrição científica da oceanografia em torno da Reserva. “A maioria das pessoas ainda acha que a Corrente das Malvinas traz águas frias para Santa Catarina. Ao ler o Livro, as pessoas vão compreender que a água fria do inverno chega a partir da expansão das águas da Lagoa dos Patos e do Rio da Prata”, explica Andrea, dizendo que essas águas continentais frias enriquecem todo o entorno da Rebio e aumentam muito a produção pesqueira. “Falando em produção pesqueira, o Livro mostra como a Reserva está sendo eficiente em proteger as garoupas! Elas são muito maiores dentro da Rebio do que fora e, assim, produzem mais descendentes que se espalham pelo litoral”, expressa também a professora.

 

 

Uma garoupa-verdadeira próxima a um cardume de sardinhas na Ilha do Arvoredo (Foto: João Paulo Krajewski)

 

A Rebio Arvoredo abriga uma diversidade de habitat e espécies, inclusive muitas ameaçadas, como a Estrela-do-mar (Astropecten brasiliensis), a Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), a Baleia-franca (Eubalaena australis), a Toninha (Pontoporia blainvillei), o Ouriço-satélite (Eucidaris tribuloides) e o Albatroz-de-nariz-amarelo (Thalassarche chlororhynchos). “O aporte das águas locais continentais (baías, canais e rios) introduzem nutrientes dissolvidos, além de muitas partículas em suspensão, enriquecendo o ecossistema marinho. No entanto, os resultados mostraram o aumento desses materiais no verão, indicando uma maior necessidade de cuidado com os efluentes das cidades do entorno, pois nutrientes em excesso podem gerar perda da diversidade local. Felizmente, no momento, nem a água, nem os sedimentos apresentam contaminação por metais ou hidrocarbonetos derivados de petróleo. Mas já existem sinais do acúmulo desses contaminantes próximo às saídas das baías, canais e rios”, explica Andrea. 

 

 

Ouriço-satélite, uma das espécies ameaçadas de extinção (Foto: João Paulo Krajewski)

 

O último capítulo da obra apresenta a conexão da sociedade com o ambiente costeiro e sua rica biodiversidade, ao expressar a importância dos serviços ecossistêmicos marinhos para as populações humanas (provisão de alimentos, regulação climática, valores culturais, produção de oxigênio etc.) e como os usos da paisagem marinha da Rebio Arvoredo e entorno podem estar relacionados aos impactos no ambiente marinho. “Há necessidade de uma gestão costeira com base no ecossistema e com um olhar integrado sobre o papel da biodiversidade, das interações da sociedade com ela e seus potenciais impactos – inclusive no bem-estar humano. Nesse sentido, é fundamental a difusão do conhecimento à sociedade, baseada em uma participação mais ativa nos processos de gestão das áreas costeiras e seus recursos, tão importantes à vida humana”, finaliza Bárbara.

 

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